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Mostrando postagens de Julho, 2013

É no presente que se joga a eternidade - Luiz Paulo Horta

Uma das consequências da visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro foi trazer à memória o simples fato de que o Brasil é o maior país católico do mundo. Parte do entusiasmo, do quase delírio que cercou essa visita vinha de uma cultura embebida em raízes cristãs. Isto se refere sobretudo à piedade popular, um dos temas preferidos de Francisco, traduzido em fenômenos como as devoções de Aparecida. Partindo do fato de que a visita foi um sucesso, a pergunta é: de que maneira ela poderá afetar a realidade do catolicismo no Brasil, que, como se sabe, perde terreno para as correntes evangélicas?

A resposta depende de uma mudança profunda, que pode ou não acontecer. O catolicismo é tão antigo, no Brasil, que acabou confundindo-se com a própria estrutura da sociedade. A vida católica, para uma parte dos 80 ou 90% de brasileiros que se declaravam católicos, era uma coleção de ritos: batismo, crisma, primeira comunhão (com a regulamentar roupinha branca), casamento, bodas disso, bodas daquilo,…

Bem-vindo, Papa Francisco! - Frei Betto

Bem-vindo aos nossos corações, nos quais gravou seu cativante sorriso e a simplicidade tão rara naqueles que, como você, galgam os degraus do poder.

Bem-vinda a sua ousadia evangélica de entrar no Brasil como Jesus em Jerusalém: não montado no cavalo branco dos imperadores, equivalente hoje às limusines blindadas, e sim no “burrico” de um carro de classe média, com o vidro aberto, sem nojo do cheiro de povo nem temor da acolhida calorosa da população.

Bem-vindo este nome, Francisco, para nomear um papa. O santo de Assis rejeitou, nas origens do capitalismo, o sistema produtivo que gerava concentração de riquezas e exclusão social, e que teve em Bernardone, pai do jovem Francisco, um dos pioneiros.

Bem-vindo à opção pelos pobres, à denúncia da corrupção dentro e fora da Igreja, e da “globalização da indiferença” diante dos fluxos migratórios provocados pela miséria semeada na África pelo colonialismo europeu.

Bem-vindo ao “colocar mais água no feijão” de todos que, “comprometidos com a ju…

Adeus à Jornada - Luiz Paulo Horta

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Que houve problemas de organização, todo mundo sabe. Mas, na minha cabeça, vão ficar da Jornada algumas imagens inesquecíveis. O que pode ser mais bonito: o Papa acossado pelas mães que lhe levavam crianças para serem beijadas, ou os bandos de jovens, com suas bandeiras, caminhando pelas praias do Rio com um excesso de alegria transbordando pelo rosto? Ou a imagem final de Copacabana, coberta de gente, num dia em que o Rio mostrava toda a sua cenografia deslumbrante? Eram retratos de um possível paraíso terrestre que, para mim, deixaram na sombra os transtornos materiais. Aliás, a ideia da peregrinação não é exatamente a dos confortos prosaicos.

Mas, Jesus Cristo, de onde veio tanto entusiasmo? Não diziam que a Igreja estava se acabando, vergada ao peso de escândalos? Ela parecia bem viva, nesses últimos dias.

Mas não cabe, aqui, o menor triunfalismo — que seria, aliás, o próprio oposto do papa Francisco. Assistimos, nesses dias, a muitos milagres, e rivalidades de crença pareciam muit…

Boas-vindas ao Papa Chico - Frei Betto

Querido papa Francisco, o povo brasileiro o espera de braços e coração abertos. Graças à sua eleição, o papado adquire agora um rosto mais alegre.
O senhor incutiu em todos nós renovadas esperanças na Igreja Católica ao tomar atitudes mais próximas ao Evangelho de Jesus que às rubricas monárquicas predominantes no Vaticano: uma vez eleito, retornou pessoalmente ao hotel de três estrelas em que se hospedara em Roma, para pagar a conta; no Vaticano, decidiu morar na Casa Santa Marta, alojamento de hóspedes, e não na residência pontifícia, quase um palácio principesco; almoça no refeitório dos funcionários e não admite lugar marcado, variando de mesa e companhias a cada dia; mandou prender o padre diretor do banco do Vaticano, envolvido em falcatrua de 20 milhões de euros.
Em Lampedusa, onde aportam os imigrantes africanos que sobrevivem à travessia marítima (na qual já morreram 20 mil pessoas) e buscam melhores condições de vida na Europa, o senhor criticou a “globalização da indiferen…

A mensagem da juventude brasileira - Lula

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Os jovens, dedos rápidos em seus celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo.
Parece mais fácil explicar esses protestos quando ocorrem em países não democráticos, como no Egito e na Tunísia, em 2011, ou em países onde a crise econômica aumentou o número de jovens desempregados para marcas assustadoras, como na Espanha e na Grécia, do que quando eles surgem em países com governos democráticos populares - como o Brasil, onde atualmente gozamos das menores taxas de desemprego da nossa história e de uma expansão sem precedentes dos direitos econômicos e sociais.
Muitos analistas atribuem os recentes protestos a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: Eles refletem um esforço para aumentar o alcance da democracia, para incentivar as pessoas a participar mais plenamente.
Eu só posso falar com autoridade sobre o meu país, o Brasil, onde acho que as manifestações são em grande parte o resultado de sucessos sociais, econômicas e políticas. Na última década, o Brasil d…

Religião e Política de mãos dadas

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Contra as tramóias da direita: sustentar a Dilma Roussef - Leonardo Boff

É notório que a direita brasileira especialmente aquela articulação de forças que sempre ocupou o poder de Estado e o tratou como propriedade privada (patrimonialismo), apoiada pela mídia privada e familiar, estão se aproveitando das manifestações massivas nas ruas para manipular esta energia a seu favor. A estratégia e fazer sangrar mais e mais a Presidenta Dilma e desmoralizar o PT e assim criar uma atmosfera que lhes permite voltar ao lugar que por via democrática perderam.

Se por um lado não podemos nos privar de críticas ao governo do PT (e voltaremos ao tema), mas críticas construtivas, por outro, não podemos ingenuamente permitir que as transformações político-sociais alcançadas nos últimos 10 anos sejam desmoralizadas e, se puderem, desmontadas por parte das elites conservadoras. Estas visam a ganhar o imaginário dos manifestantes para a sua causa que é inimiga de uma democracia participativa de cariz popular.

Seria grande irresponsabilidade e vergonhosa traição de nossa parte,…

Ópio do povo: use sem culpa

Assim como as máfias do esporte, o mimimi-anti-futebol-paraíso-da-alienação não vai me fazer gostar menos do esporte. Nem da seleção.
Que eu saiba, não sou nacionalista. Diferentemente de Policarpo Quaresma, o personagem de ufanismo exacerbado de Lima Barreto, jamais moveria uma guerra para dizer que o rio Amazonas é maior que o rio Nilo. Tenho urticária quando alguém, mesmo bem intencionado, começa a cantar do meu lado que é brasileiro com muito orgulho e com muito amor. Nada contra orgulhos ou amores, mas toda vez que escuto o refrão, que vale tanto para brasileiros orgulhosos como para brasileiros indignados, penso que o Caetano Veloso tinha razão quando interrompeu o seu “Proibido Proibir” aos berros e vaticinou: “Se vocês em política forem como são em estética, estamos fritos”.

Não sou sommelier de política nem de estética, mas gosto de futebol. Torcer por uma equipe é, talvez, o único hábito de infância que ainda carrego no bolso. Deixei de gostar de muita coisa com a idade. A…

Dá vontade de ter 7 anos, Brasil - Márvio dos Anjos

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No futebol, nem sempre o melhor vence. Que ótimo.

Porque a Seleção Brasileira não é um time melhor que a Espanha. Uma visão fria e racional vai salientar o fato de que o talentoso Oscar precisa render mais do que apenas dois passes por jogo, que Hulk, mesmo com os dois passes de ontem, ainda não está plenamente encaixado no onze titular e que talvez seja recomendável achar um lugar para Hernanes.

Mas quem quer ser frio e racional agora, num dia em que David Luiz fez a partida de sua vida, numa noite em que Luiz Gustavo mostrou ser o verdadeiro guardião da defesa brasileira, num jogo em que Neymar foi decisivo e mostrou credenciais contra muitos de seus futuros colegas, numa partida em que Fred reivindicou para si os holofotes que merece como principal centroavante brasileiro – e um dos melhores do mundo – em atividade?

Sim, isto do Fred é importante. Porque desde que o Barcelona de Guardiola e a Espanha de Luis Aragonés e Vicente del Bosque assombraram o mundo, não foram poucos os co…