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Mostrando postagens de Agosto, 2012

A juventude está perdida (?)

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Parpites - Luciano Pires

Abro minha palestra GERAÇÃO T com uma provocação composta por três enunciados que invariavelmente deixam a plateia babando. Olha só:
"Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus.”
"Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."
"Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."
Esses textos pesados circulam pela internet há anos. O primeiro é atribuído a Sócrates, 400 anos antes de Cristo; o segundo a Hesíodo, 720 anos antes de Cristo; e o terceir…

A dimensão do profundo: o espírito e a espiritualidade - Leonardo Boff

O ser humano não possui apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioriadade que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual.
O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É o ser humano inteiro que por sua consciência se percebe pertencendo ao Todo e como porção integrante dele. Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos, escutamos, pensamos e amamos. Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu profundo. As coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão a que chamamos de profundidade.
Assim, uma montanha não é apenas uma montanha. Pelo fato de ser montanha, transmite o sentido da majestade. O mar evoca a grandiosidade, o céu estrelado, a imensidão, os vincos prof…

O que vale mais, o escritor ou o livro? - José Roberto Torero

Se você está escrevendo seu primeiro livro, aconselho a gastar menos tempo com o texto e mais com sua autobiografia. Invente algo bem criativo. Diga que tem dois sexos, que é especialista em magia negra, que sua mãe assassinou seu pai e que foi amamentado por lobos. E, se der uma entrevista, não esqueça de uivar no final.
O que é mais importante, o criador ou a criatura? Eu prefiro a criatura. Não me importa muito se um autor tem 18, 68 ou 118 anos, se é um office-boy, um acadêmico ou uma stripper, se nasceu na Mooca, em Londres ou em Pokhara, a cidade-lago do Nepal. O que me importa é o livro. Mas muitos preferem o escritor.
É claro que tem o seu sabor saber quem escreve uma obra. Eu mesmo, quando pego um livro na livraria, dou aquela olhada na orelha para ver a foto do autor e ler sua biografia. Mas isso deve ser apenas a cereja do bolo, não seu recheio; deve ser apenas uma nota de rodapé, não a cabeça da reportagem. O culto à personalidade tem crescido tanto que em várias resenhas…

A relação com o simbólico - Alfredo Roberto Marins Junior

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“Quem tem uma ferradura em cima da porta para atrair a sorte deveria usá-la nos pés.” Autor desconhecido
O homem que iniciou o estudo científico da linguagem (chamada linguística) foi o linguista e filósofo suíço Ferdinand de Saussure. Entre outros elementos ele definiu o signo linguístico. E antes de continuar, devo dizer que signo linguístico nada tem a ver com o zodíaco ou astrologia. Explico:
Imagine uma moeda. 
Se você usou da sua criatividade, duas coisas aconteceram no seu cérebro ao mesmo tempo. A primeira é que a imagem de uma moeda apareceu. Pode não ter sido muito nítida, pode parecer uma moeda de desenho animado ou aquelas moeda douradas dos tesouros, mas alguma imagem deve ter aparecido.
A segunda é que aquela voz que repete em sua cabeça tudo o que você lê, repetiu “moeda”. Cada vez que você lê, ela fica repetindo, “moeda”, “moeda”. Este som que você reconhece é chamado de significante. Já o conceito de moeda (redonda, de ouro ou de prata, com uma face estampada) é chamado…

Palavras Vulcânicas 34

"Muitos veem na leitura uma perda de tempo. Têm razão: a arte é inútil, já dizia Paulo Leminski. Não serve para nada além do prazer que dá. Como pensar, ler ainda por cima dá trabalho — é preciso parar tudo e alienar-se do mundo para que a relação com o texto se estabeleça. Além do mais, ler vicia. Porque se torna uma espécie de droga a que ficamos dependentes porque simplesmente nos dá prazer. Ainda mais evidente é com o ato de escrita. Não há receita, não há fôrma nem mágica que faça alguém virar escritor da noite para o dia. Escrever, como pensar e ler, dá trabalho. Mas também vicia. E vicia porque dá prazer. O prazer de ler, escrever e pensar potencializa o ser."  Luiz Costa Pereira Júnior, filósofo.

Um dia isto tinha que acontecer - Mia Couto

Está em apuros a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está em apuros a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. 
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) em apuros são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. 
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (atualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. 
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...…

Você não tem direito a ser feliz

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“- Ninguém aqui tem direito de ser feliz!”. Cheguei à sala de aula dizendo logo assim. Silêncio. 
Parece uma frase de impacto. E é. Afinal de contas, superadas as opressões políticas, sociais e religiosas do passado, num mundo em que não existem mais distâncias e numa era de abundância material até em países emergentes como o Brasil, nada mais absurdo que questionar esse “direito” sagrado. O problema: A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada, afirmam especialistas. Raiz da questão?! Parece ser a educação. Ou a insipiência dela. 
Temos uma geração de classe média que estuda em bons colégios, é fluente em outras línguas, viaja para o exterior e tem acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que tem muito mais do que seus pais tiveram. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade. Pronto. Tudo certo. 
E aí companheiro?! Há algo mais per…

“Para dedicar tempo aos filhos, é preciso deixar outras coisas de lado”

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O escritor Sergio Sinay, 66 anos, é um especialista em vínculos humanos. Sociólogo e jornalista, formou-se na Escola de Psicologia da Associação Gestáltica de Buenos Aires. Requisitado consultor sobre assuntos familiares e relações pessoais, tem vários livros publicados. O mais novo,Sociedade dos Filhos Órfãos, que acaba de sair em português (Editora BestSeller), é uma dura crítica ao modo de vida da atualidade, em que pais delegam a educação e a atenção aos filhos para babás, escolas e até para as novas tecnologias – como celular, televisão e computadores. Esse comportamento transmite aos filhos a noção errada de que basta ter dinheiro para encontrar quem se encarregue daquilo que nos cabe fazer, afirma Sinay, em seu livro.
Casado e pai de um jovem, Sinay diz que o amor é uma construção contínua que se fortalece diariamente com responsabilidade e comprometimento. “Para dedicar tempo aos filhos, é preciso deixar outras coisas de lado”. A seguir trechos da entrevista concedida ao Mulh…

O maior brasileiro de todos os tempos

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E quando tudo mais tiver terminado, restará o talento. 
E o SBT coloca no ar um daqueles programas caça-níqueis com o título nada humilde de O MAIOR BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS. E coloca nas mãos do público a indicação dos nomes, sem uma definição clara de critérios. É claro que só poderíamos esperar um desastre, com Luan Santana à frente de Tom Jobim, Neymar à frente de Garrincha e o tal “bispo” Edir Macedo à frente de Ruy Barbosa, entre outros absurdos. A lista é repleta de nomes que demonstram a incapacidade do povo de compreender algo mais que a visibilidade das personalidades, que são escolhidas muito mais pela presença no imaginário do que por seus feitos.
Não perderei tempo aqui analisando a lista de indicados, mas quero fazer um comparativo com outra lista que ouvi no rádio. Tratava da escolha na Inglaterra das músicas mais importantes de todos os tempos. Deu Queen na cabeça, com Bohemian Rhapsody. E Adele em quarto lugar à frente de ninguém menos que Beatles... Adele à fren…

Um julgamento de exceção - Antonio Lassance

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Como nunca antes Dizer que o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do país é corromper a própria história da corrupção do Brasil. É um favor que se faz a uma legião de notórios corruptos e corruptores de tantas épocas que jamais foram devidamente investigados, indiciados, julgados, muito menos condenados.
O que se pode de fato dizer sobre a Ação Penal 470 é que nunca antes, na história desse país, um escândalo foi levado, com está sendo agora, às suas últimas consequências.
Como é possível que, em apenas 2 anos (supostamente, de 2003 a 2005, quando foi denunciado), um único esquema tenha sido capaz de superar aqueles constantes de 242 processos engavetados e 217 arquivados por um único procurador-geral? Também falta um pouco de noção de grandeza a quem acha que o financiamento irregular a políticos, de novo, em apenas dois anos, pudesse ter causado mais prejuízo aos cofres públicos do que o esquema que vendeu um setor econômico inteiro, como foi o caso da privatização …

A hora do julgamento - Marcos Coimbra

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Com a ansiedade de uma noiva à véspera do casamento, nossa autoproclamada “grande imprensa” preparou-se para a data histórica. O tão antecipado julgamento do “mensalão” começou.
Dedicam-lhe tudo: capas de revista, manchetes em letras garrafais, lugar privilegiado nos portais da internet, matérias especiais nos jornais das emissoras de rádio e televisão. Nos canais pagos dedicados ao noticiário, a promessa de plantões e transmissões ao vivo.
De agora até que os 38 acusados tenham sido julgados, nenhum veículo pertencente aos grandes grupos de comunicação pretende tirar o foco dessa cobertura. É o pacote “Super Premium Vip”, reservado aos megaeventos que mobilizam o País. Considerando a duração, comparável somente à Copa do Mundo.
Seus analistas e comentaristas têm dedicado ao tema boa parte do seu tempo nas últimas semanas. Os argumentos podem não ser originais, mas estão sendo reembalados para parecer novinhos. Os chavões de sempre são retirados do armário e recebem novo lustre. Pare…

Sobre política e mentiras

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O mensalão e a política dos chimpanzés - Luciano Pires
Em seu livro “Chimpanzee Politics”, o primatologista alemão Frans de Waal apresentou os resultados de sete anos de estudos com uma colônia de chimpanzés no zoológico e Arnhem, na Holanda. O trabalho de De Waal, somado ao de outros primatologistas reconhecidos, como Nicholas Humphrey, contribuiu grandemente para a compreensão do comportamento dos primatas em sociedade. Suas descobertas foram imediatamente relacionadas ao comportamento dos seres humanos, especialmente por ele introduzir na primatologia o pensamento do italiano Nicolau Maquiavel – explicitado em seu famoso livro O Príncipe -, cunhando o termo “Inteligência Maquiavélica”, que mais tarde chamamos de “maquiavelismo”. A inteligência maquiavélica diz respeito a técnicas aplicadas por quem quer ter sucesso político na sociedade e compreende comportamentos como fazer e quebrar alianças, falar verdades ou mentiras, fazer e quebrar promessas e regras, manipulação, etc. O maq…